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Por @TaianAoki mais em O Diário Semanal
São Paulo, 27 de junho de 2013
Desocupação da favela do Bicudo acaba em conflito com a polícia e morte de dois moradores.
Moradores que se recusaram a deixar o local foram retirados a força e dois deles reagiram e acabaram mortos.
Dezembro de 2012, o fim do mundo não ocorreu para a maioria das pessoas como previam os Maias. Porém, algumas pessoas poderiam discordar disso. Para os moradores do complexo do Bicudo, uma área de favelas localizada na região leste da capital paulista, foi como se o fim do mundo houvesse sido anunciado na data prevista pelos Maias e viria a acontecer na última quarta-feira, dia 26. Na ocasião, ironicamente, no dia 12 de dezembro de2012, aprefeitura de São Paulo anunciou a desocupação de parte do complexo do Bicudo para a construção de um novo museu do Futebol que serviria como ponto turístico para a Copa do Mundo de 2014. Por se tratar de uma ocupação ilegal, no caso, uma favela, a prefeitura declarou que os moradores não seriam realocados e nem ao menos teriam direito aos valores de desocupação de seus lares. E isso causou revoltas.
Muitos moradores fizeram protestos e mais protestos em frente à prefeitura, sem sucesso. Alguns deles começaram a desocupação logo após o anúncio feito pelo prefeito como se antevissem que não haveria meios de evitar aquilo. Enquanto outros foram deixando o local com o decorrer do tempo. Entretanto, a maior parte prometeu ficar e lutar pelas terras que diziam ser “suas por direito”. A questão aqui é que a lei está ao lado da prefeitura. Por se tratar de uma área de ocupação ilegal, o governo não tem necessidade de nenhum pagamento indenizatório e pode sim requerer a saída dos ocupantes, por mais desumano que isso possa soar. E foi exatamente isso que a prefeitura decidiu.
No começo da resistência as famílias tentaram impedir o avanço das tropas da polícia militar formando uma espécie de barreira humana. E os policiais revidaram com bombas de efeito moral e muita cacetada. Conforme a força ia sendo utilizada contra os moradores, muitos deles fugiam levando seus poucos pertences e desistiam da região do Bicudo. Mas alguns deles defenderiam suas terras até o final. Um número considerável de homens empunhando facões, pedaços de pau e ferro, enxadas e qualquer tipo de arma improvisada que se pode imaginar tentava impedir o acesso dos policiais.
O prefeito informou que os policiais haviam sido instruídos a não usar poder de fogo contra os moradores. Mas eles poderiam abusar dos cassetetes. E foi o que fizeram. O que aconteceu no complexo do Bicudo foi uma verdadeira guerra civil. Os números oficiais do embate foram de 25 feridos – entre eles, 21 moradores da região e apenas 4 policiais – e dois mortos. Ambos moradores do complexo e membros da mesma família. Antônio Carlos da Silva e Joaquim da Silva, pai e filho respectivamente, foram espancados até a morte em frente ao seu barraco que acomodava toda sua família formada por Marieta Silva, mulher de Antônio Carlos e mãe de Joaquim e mais três filhas. As mulheres não estavam mais no local e não se tem notícias do paradeiro delas. Aparentemente Antônio Carlos e Joaquim já tinham intenção de lutar por seu lar até o fim, pois colada na porta do casebre havia uma carta escrita a mão pelo pai da família. A carta foi liberada à imprensa esta manhã e possuía os seguintes dizeres:
“As ondas de vaidade tomaram o vilarejo e minha casa se foi como fome em banquete.
Vocês dizem que eu não pertenço a esse chão, mas a quem ele pertence então? Vocês se esqueceram de nós por décadas e agora acham que podem nos tirar tudo que construímos?
De que adianta regar as flores do deserto com chuva de insetos?
Saibam que houve resistência. O Salto foi dado.
Aos jornais, eu deixo meu sangue como um capital,
Às famílias, eu deixo meu sangue como um punhal,
À corte, eu deixo meu sangue como um sinal. Vocês não sairão ilesos dessa vez.
Ass: Antônio Carlos da Silva, pai de família, homem honesto e trabalhador.”
E aparentemente ele tinha razão. Hoje pela manhã o prefeito comentou o acontecido em poucas palavras. Disse que não esperava que houvesse resistência e muito menos mortes, mas que pretende continuar a desocupação. O Ministério Público está apurando o caso. Um porta-voz do MP confirma que caso aberta uma CPI em caráter de urgência, o prefeito e outros responsáveis serão indiciados por homicídio duplamente ou até triplamente qualificado. E a desocupação do complexo do Bicudo será interditada. Entretanto, isso não garante que as famílias possam retornar às suas casas, pois a ocupação da área continua sendo ilegal. O que aconteceria com o complexo do Bicudo, em caso de interdição da desocupação, é que ele viraria um grande terreno ocioso alvo de conflitos políticos e jurídicos. Como tantos outros que temos em São Paulo. E as famílias pobres que viviam lá que procurem outro lugar para se alojarem ilegalmente.