Por @TaianAoki mais em Scrotos Breja & Ressaca
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Todos queriam ser como ele foi. Um grande rei. Inspirador, heróico, sábio.
Doce nas palavras e duro nas decisões. Idealista e correto, sempre fazia suas escolhas pensando no bem maior de seu povo. Suas palavras transformavam leis. Seus inimigos não entendiam o segredo de sua força contra a dor. Ele parecia eterno e pleno. Parecia.
Essa história não tem o final feliz que todos imaginam.
O rei despertou em mais uma bela manhã de sol e céu azul. Seria um dia curto para as tarefas do grande senhor. E poderia relaxar, até um rei deveria ter folga de vez em quando. Tratou de se mover para acabar de uma vez com os deveres. Não podia esperar para relaxar, mal se lembrava da última vez que tivera uma folga.
- Provavelmente foi no dia do nascimento da princesa, meu senhor. – tratou de lembrá-lo seu fiel escudeiro.
E ele deveria ter razão. Não tinha um único dia de folga desde o nascimento de sua filha. Nascimento este que terrivelmente acarretou na morte da rainha. Os mais devotos do rei e também os súditos mais próximos ficaram aterrorizados, temendo pelo estado emocional do rei. Mas ele se manteve forte.
- O reino é mais importante do que qualquer outra coisa neste momento.
Ele disse na ocasião da morte da rainha, há doze anos. Desde então nada o tiraria de seu comando. Nada além desse dia de folga.
Queria andar pelas ruas do reino e conversar com seu povo. Era o seu grande desejo. Porém, sabia que o general do exército não permitiria que isso acontecesse, alegando ser demasiado perigoso. Mas não era ele o rei afinal? Seu desejo não deveria ser uma ordem? Ora, não poderia haver no mundo alguém mais teimoso que ele. Nem que fosse alguém sob o seu comando. Chamou seu escudeiro e deu uma única ordem, clara e simples:
- Traga-me roupas de plebeu.
Seu escudeiro foi rápido e eficaz, como sempre. E foi duplamente, pois trouxera dois conjuntos de roupas completos.
- O que pretendes com dois conjuntos?
- Ir contigo às ruas, meu senhor.
É claro que ele iria. Sabendo que discussões não surtiriam efeito nenhum, o rei aprovou. Talvez seu escudeiro fosse mais teimoso que ele afinal. E ambos foram às ruas, trajados de plebeus. Escondidos da guarda real.
Nas ruas, o rei passava despercebido. Os trajes de plebeu, sujeiras improvisadas no rosto e o capuz que cobria sua cabeça pareciam cumprir a função. Caminhando pelas ruas ele se lembrava da época que era apenas um garoto. Ainda não estava destinado a ser rei, era apenas um jovem sedento por liberdade e cheio de rebeldia. Fugia de sua mãe para passar o dia nas ruas da capital do reino.
“Parece que não cresci nada”, pensou. Um sorriso brotou no canto da boca.
Passou em frente a uma praça com uma enorme e pomposa fonte em homenagem ao rei que o antecedeu. A praça central, que levava o mesmo no que o rei e a cidade. Lembrou-se de seus quinze anos.
Estaria entrando para o exército no ano seguinte e restava pouco tempo antes do dever consumi-lo em tempo integral. E gostava de gastá-lo nas ruas da cidade que tanto amava. Caminhou pela praça e avistou uma garota sentada à beira da fonte. Ela retribuiu o olhar. Ele se aproximou. Conversaram. Se entenderam maravilhosamente bem. Gastaram juntos os últimos dias de liberdade do futuro rei antes que ele entrasse para o exército.
- Vamos parar aqui por alguns instantes. – disse ao seu escudeiro. E se sentaram à fonte.
Naquela mesma fonte, mais de trinta anos depois, ele percebeu o quanto as coisas tinham saído diferente do que ele imaginava na época. Quando conheceu a garota começou a ponderar se realmente queria o exército. Ela o cativara. Começou a pensar em abandonar a carreira militar após os anos iniciais. Por um tempo até trocaram cartas. Mas uma sequência de fatos mudou totalmente o rumo do que poderia ter sido uma história de amor. Primeiro veio à promoção a comandante de seu batalhão. Depois a guerra estourou. Mortes e mais mortes. Muitas batalhas ganhas, muitos amigos perdidos. E ele se tornou general. Por fim, veio a morte de um rei sem família e uma herança que nem ele esperava. O posto de soberano do reino. Desde o exército, tudo mudou e nem se lembrava daquela garota até rever a fonte onde a encontrou pela primeira vez. E então se deu conta do quanto era solitário. Com exceção de sua filha e de seu escudeiro, não tinha ninguém no mundo. Seu povo era sua válvula de escape e sempre se focava nele.
Não amara a moça da fonte realmente, mas foi o mais próximo disso que chegou. A coroação veio de surpresa e ele já não era mais um jovem. Teve que se casar às pressas, do contrário perderia a chance de ter herdeiros para o trono. Sua mulher era uma jovem adorável, amável. Mas ela também se foi muito cedo, antes de dar chances ao coração do rei. Sentia falta de sua companhia muitas vezes.
- Meu senhor, acho que fomos reconhecidos.
- Que?
- Devemos partir agora.
E rumaram para o castelo. Onde o rei passaria o restante de seu dia de folga afogado na solidão. Em seu quarto, sozinho, chorava. Pois até um rei despeja lágrimas por não ter um grande amor. Ajoelhou-se como um servo e perguntou-se como seria ter um amor com olhos de mel para lhe iluminar. E o dia de folga saiu caro. Nunca mais teria um. Trabalharia pelo seu povo até o último dia de sua vida. Assim ocuparia a mente.
No dia seguinte convocou o povo para fazer um discurso. Seu povo amava seus discursos. E quando saiu no parapeito de seu castelo o povo o aclamou com fervor. Admirando sua coragem, sua calma, seus olhos que liam além do amanhecer. Todos queriam ser como ele. Ninguém sabia que era infeliz.
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