Por @RicoCorreiaUP mais em Usuário Padrão
No meio do palco ela estava sozinha, com medo e acuada, impossibilitada de se mexer, ficou a espera do provável fim.
As chamas começavam a consumir pouco a pouco o salão, ao redor do palco o fogo já imperava soberano. Mesas, cadeiras, balcões tudo já ardia em chamas furiosas e incontroláveis. Enquanto ela quieta e apática, sem sequer poder gritar ou chorar aceitava sua triste sina de destruição.
“Brincadeira, meu fim vai ser este? Depois de tanto tempo ao lado dele, ele me abandonará aqui para ser consumida pelo fogo, enquanto ele foge… Sei que é um momento de desespero, mas não consigo deixar de me sentir traída”.
Um pedaço de madeira da ponta do palco estala e faz voar algumas fagulhas para diferentes direções, caindo alguns muito perto dela inclusive. Ainda ali presa em um pedestal. Ainda sem capacidade chorar.
“Lembro de uma briga, dois caras discutindo e se empurrando. Ele não estava aqui no palco comigo pra me proteger. Um dos caras bateu em um lampião com querosene, que caiu e começou a queimar o bar, acho que quando ele se tocou do que acontecia já era muita tarde, não tinha como ele me salvar”.
Ela então aceitou definitivamente que sua pele ébano seria consumida pelas chamas, havia perdido as esperanças, o calor das chamas já começava a lambê-la. Começa sentir que sua pele negra estava preste a ser ferida e as línguas de fogo estavam começando a causar as primeiras queimaduras.
Do meio das chamas um homem sai com as roupas encharcadas. Ele a abraça aos prantos e do melhor modo que pode tenta encontrar a saída do inferno que o bar havia se tornado. Cambaleia a alguns passos da porta e é amparado por um bombeiro que leva os dois ao lado de fora, ele tossindo freneticamente e ela reconfortada descansando em seus braços.
- Você é louco? Se arriscar tanto por causa de uma guitarra?
O homem olha para o bombeiro:
- Não peço que você entenda, mas ela é parte de mim. Tudo o que eu sou e o que vou ser depende dela. Se não fosse por ela, provavelmente estaria colhendo algodão ou laranja em alguma plantação no sul do Mississipi ainda, preciso dela pra continuar sendo eu mesmo, e hoje quase a perdi por causa de uma mulher chamada Lucille.
Ele encarou a guitarra em seus braços.
- Lucille. Aqueles dois homens arriscaram as próprias vidas e as nossas por uma mulher chamada Lucille, ela deve valer tanto pra eles quanto você pra mim. Você é minha Lucille.
Sã e salva ela aceitou o batismo, e desde então assim ficou conhecida.
Lucille.