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Por @TaianAoki mais em O Diário Semanal

Ouça enquanto lê

- Cada um paga o seu?

Aquelas palavras, por mais óbvias que fossem, fizeram com que seu sangue fervesse.

- Cada um paga o seu o caralho! Foi você que bateu em mim com essa sua banheira, seu filho da puta!

E realmente era uma banheira. Uma Brasília caindo aos pedaços. Ninguém sabia como não tinha desmontado por completo com a colisão. Justo hoje que ele saiu com seu Volvo novinho.

- Calma, amigo, não precisa se exaltar. Vamos encostar e conversamos melhor.

E eles encostaram. Ambos desceram do carro. O dono da Brasília era um homem de meia idade, que exalava simplicidade. O do Volvo, um empresário de sucesso, estressado e carrancudo.

- Não tem papo, você bateu você paga.

- Meu senhor, mil perdões pelo acontecido. Como o senhor pode perceber eu não tenho condições para pagar o conserto de um carro desses… nem sei como farei para consertar o meu.

- Isso não é problema meu… prestasse mais atenção na rua, seu cretino.

- Calma, não há necessidade disso. A gente não pode chegar num acordo? Cada um paga o seu e tudo bem? Eu realmente gostaria de arcar com os consertos, mas não tenho condições…

- Ta tudo bem, papai? – disse uma voz de dentro da Brasília.

- Julia, fique no carro. – mas ela saiu. Uma criancinha de cinco anos desceu da Brasília e correu em direção ao pai que a pegou no colo.

- Papai, a mamãe ta esperando a gente pra ir no hospital.

- Eu sei, Ju, mas o papai tem que resolver umas coisas aqui. – e de repente a pintura do Volvo não parecia ser grande coisa para o empresário, poderia sair com outro de seus carros durante a semana. Mas ele notou o brilho dos olhos da criança. Aquilo era algo único. – Senhor, eu sinto muito pelo seu carro. Passa o seu telefone que eu darei um jeito de pagar pelo conserto. Mas eu realmente preciso ir, minha mulher está me esperando.

- Ta… anota aí. – disse, meio aturdido. – Me passa o seu.

E eles trocaram telefones e seguiram seu caminho.

Mario, pai de Julia, estava em casa quebrando a cabeça fazendo contas e pegando empréstimos para arcar com o conserto do Volvo, sabendo que sua Brasília continuaria batida. E as contas de casa atrasariam mais um pouco.

- Amor, chegou uma carta pra você.

Ele abriu. Dentro do envelope uma carta escrita a mão e um outro envelope lacrado dentro.

Prezado Mario,

 

Consegui seu endereço através da lista telefônica. Sei que no outro dia fui um pouco ríspido com você e por isso gostaria de me desculpar.

Não se preocupe com o conserto do Volvo, descobri que ele ainda estava na garantia e já mandei para a oficina. Espero que isso o ajude a pagar o conserto da Brasília. Cada um pode pagar o seu então?

Espero que não tenha causado maiores problemas a você, essa nunca foi a minha intenção. Desejo um bom dia para você e para sua família.

Atenciosamente, Arnold.

 

Ps: Que Mario?”

 

Mario riu com as palavras finais da carta. Era um alívio não ter que arcar com o conserto de um Volvo. Agora pensaria nas contas da casa primeiro e depois poderia consertar a Brasília.

- Papai, o que é esse envelope? – disse Julia ao seu lado na mesa.

Verdade. A notícia do Volvo era tão aliviante que tinha se esquecido completamente do outro envelope que viera junto na carta. O que poderia ser? Ele rasgou o embrulho e virou a boca para baixo, deixando cair um calhamaço de notas de 50. Os olhos brilharam. Aquilo era o suficiente para acertar as contas atrasadas e ainda consertar a Brasília. E ainda havia um pedacinho de papel dobrado dentro do envelope. Ele abriu. Dentro pequenos dizeres escritos na mesma letra da carta:

Perdoe minha grosseria no outro dia. É preciso ter diferentes maneiras para mover o mundo. Você me fez enxergar isso.”